revolução


O relógio de pé, com anos para não se aguentar já em pé, marcava onze horas!
Entrei, pé ante pé, na sala e sentei-me na cadeira que tinha abandonado há minutos.
Os amigos mais próximos e outros que só por vezes ali se sentavam esperavam, enquanto discutiam e tentavam adivinhar o que diria, aquela voz que os esclareceriam.
Era estranho perceber a ansiedade no olhar que dirigiam áquele aparelho sem imagem.
Mais estranho era estar ainda ali sentado, como se fosse transparente.
O diálogo entre os adultos seguia indiferente á minha presença.
Apesar ter já ouvido uma ou outra expressão que faria os olhares dirigirem-se para mim como se eu as tivesse utilizado e consequentemente a ordem de dormir soasse.

Mas não, eu não estava ali!

Algo de importante estava a acontecer, não sabia o quê, mas isso era evidente.
Da rádio soava uma música repetida, mas palavras fiáveis vinham da "BBC". Era para ali que a atenção estava dirigida, de onde viriam, supostamente, esclarecimentos sobre o que se passava em Lisboa.

Revolução!!
E afinal era uma revolução.

Não fazia ideia do que significava aquela palavra naquele contexto.
Mas era só uma revolução!
E ali estava eu, na dúvida se seria coisa boa ou não!
Os adultos, normalmente, fáceis de interpretar estavam hoje complicados.
As expressões flutuavam entre a euforia e extrema apreensão.
Não era suposto agirem daquele modo!
Estavam literalmente descontrolados, educados, mas objectivamente diferentes.

E eu ainda estava ali !!

Andavam tropas nas ruas de Lisboa e gente a apregoar liberdade.

Uma confusão!!

Já a rádio emudecida, comentários repetidos, esgotadas as possibilidades de adivinhação e conformados com a ideia de só no dia seguinte ser possível saber o que se passava efectivamente neste país, voltaram a agir como adultos...

E a transparência acabou.

Deitado, sem conseguir dormir, questionava-me como era possível os meus irmãos dormirem profundamente.
Queria que o dia nascesse, chegar ao liceu e então entender o que realmente se passava, óbviamente, dos adultos não poderia esperar grandes esclarecimentos.

Senti os passos que se aproximavam silenciosamente...
Aconchegou-me os lençois como se fosse uma noite de Inverno e disse:
- Amanhã não há aulas.
E eu pensei quase alto:

- Merda de revolução!!


Depois?
Depois foi a revolução.
Feita de histórias inacreditáveis!
Mas não me refiro a esta que festejam hoje...

A minha.

10 comentários:

Narrador disse...

Pois...As histórias que nunca se escrevem e que ninguém conhece. Aquelas que respiram em ti. Histórias inacreditáveis...Aquelas que desenhas sem desvendar, dentro de ti. Tudo faz sentido...

Um abraço! Continua a escrever assim Zé. Continua...


Abraço!

O Árabe disse...

Não vivenciei essa revolução. Entretanto, acho muito original a forma como a abordas. :) Um abraço, bom fim de semana

Frágil disse...

Desculpe a invasão...
Dei com o seu link por acaso no trapézio e por ver que eram as iniciais do meu nome clickei.
Zé Manel, ou Mané é o que desde sempre me chamam ( coicidencias IoI ).

Não digo que lembro como se fosse ontem, mas lembro esse dia, estava mais ou menos igual a como o senhor descreve neste post, lembro que nesse dia não houve recreio e que toda a gente no dia seguinte dizia: "somos livres".

Não conhecia o seu blog e gostei, gostei e fiquei orgulhoso por ver que tb me lê ( vejo que tem o meu link ).

Se me permitir voltarei mais vezes.

Abraçuuuu

Å®t Øf £övë disse...

Zé,
Porque te considero uma pessoa que através das palavras demonstras ser livre de gestos e pensamentos, e porque quero que assim continues, dei-te o merecido destaque no meu blogue, ao atribuir-te o "Prémio Florido".
Depois passa por lá para o receberes.
Parabéns... e continua a ser livre nos gestos e no pensamento.
Abraço.

zm disse...

Narrador,

Meu caro, um abraço sentido para Ti...

"... Aquelas que desenhas sem desvendar, dentro de ti. Tudo faz sentido..."

Há dias em que nada faz sentido...
Enfim...

Já passei no teu Alpendre e fiquei sem palavras...
Volto mais tarde...

Obrigado

zm disse...

Árabe,

Foram tempos incríveis...
Únicos.
Era um miudo quando começaram...

Amigo, gosto de te ver por aqui...
Grande abraço

ps: Já lá passei, como sempre, a sensação é que é para mim... Volto. Obrigado!

zm disse...

Frágil,

Se alguém tem que pedir desculpa sou eu.
Invadi o seu espaço indecentemente e durante horas sem lhe deixar um só comentário.
Não porque me desagradou, mas pela surpresa de encontrar textos tão bem elaborados e de uma maturidade emocional que me deixa sem palavras.
Foi através da Ink, a vossa KI, que o descobri e outros onde já ganhei algumas horas e olheiras proporcionais...
Apesar de gostar de escrever, não é a minha área, tenho perfeita consciência das minhas limitações, acrescentando o facto de ter descoberto, não um "Espaço", mas o "Grupo", que partilha uma cumplicidade invejável e todos munidos do "dom" da escrita.
Posto isto e eu que sou tímido, imagine o orgulho que as suas palavras provocaram.
Volte sempre que quiser!!!

Obrigado

ps: senhor não!!

zm disse...

Art,

Muito obrigado!!!

Não digo mais aqui, mais tarde passo por Lá.

Abraço

KI disse...

Zé deixa-te de coisas e junta-te ao pessoal no Trapézio sempre que quiseres, ninguém que me rodeia tem a mania da superioridade mas os mais próximos são ou tão mais frontais do que eu.

Um beijo.


P.S. - Gostei imenso da tua "revolução". 5 estrelas.

zm disse...

KI !!

Bem vinda ao ZM :)

Junto concerteza...

Beijo

gracias