Eu detesto o Natal.
Entristece-me as entranhas. Sou um estranho.

Aquela história de celebrar o nascimento e ainda que seja o meu, longe das palhas e do bafo quente da vaca e do burro, nunca me agradou.
Sempre foi assim e não agora que os cinquenta se vislumbram no horizonte. Muito pelo contrário.
Irrita-me, complica o sistema nervoso sentir-se na obrigação de festejar. Não que tenha algo contra festejos, gosto, desde que a data não seja uma permissa incontornável.
Hoje festejava. Qualquer coisa!
Juntava uns quantos personagens conhecidos e apimentava o hambiente com quem há já uns tempos me apetece também privar.
Dançava, sem interromper há meia noite para rezar.

Perdoem o tom irónico os que rezam não só com o galo mas todos os dias. Por esses tenho o maior respeito e adivinho pouca divergência da minha opinião sobre o Natal que por aí se festeja.
Porque é suposto ser todos os dias.
Natal é quando o Homem quer!
Pobres homens que o festejam e praticam só em data certa e debaixo do olhar da competição.
Puta da hipocrisía...
Quantos eventos vejo por aí com o intuito de resolver os dramas de pobres crianças abandonadas á sua sorte a distâncias imensas, organizados por personagens que por aqui se afastam, para evitar o cheiro e a ausência de beleza, da pobreza vizinha. Próxima demais, incomodativa.
Merda de mundo que criámos, onde o que parece é sempre mais importante do que ser. Fazer.

Afinal é para as crianças. Dizem por aí!
Quando a consciência nos empurra na procura urgente de justificação para o injustificável.
Afinal elas são aquilo que nós deixamos e por isso andamos rodeados de pequenos ditadores. Monstrinhos munidos de uma inteligência manipuladora que a falta de tempo, ou vontade para os acompanhar, serve de desculpa para verdadeiras atrocidades que com um encolher de ombros dizemos normais e diáriamente convivemos.
Por isso o Natal é a altura das desculpas. Do perdão.
Para isso recorre-se a todos os meios existentes e outros, para satisfazer ás claras, orgulhosamente, os caprichos das crianças pequenas ou grandes, para quem o tempo não existiu.

E durante dois dias a felicidade é comprada e embrulhada em papel colorido e laços berrantes.
Que bom!
Estão as ruas iluminadas tão bonitas.
Queixam-se os que nelas dormem estas noites frias e compridas:
- Luz a mais e calor a menos.

Bom Natal |todos os dias|